Sobre histórias de partos e mulheres em círculos

A primeira vez que eu entendi o significado de um parto eu era jovem demais. Uma grande amiga me convidou para acompanhar o nascimento de sua filha em casa. Uma parteira havia sido chamada para esse momento, parir em casa com parteira, era algo raro em terras urbanas, e infelizmente ainda é. Até então eu achava que essa experiência era sobre nossas ancestrais, moderno pra mim significava todas as mulheres parirem em hospitais bem equipados e com grandes equipes de profissionais especializados.


Foi nesse momento que um portal de consciência se abriu em minha existência como mulher na Terra. A partir de então iniciei uma jornada em busca de entendimento do que é ser mulher e anfitrionar crianças no mundo.


Não posso contar mais sobre esse parto, porque eu não estive lá, na época a minha resposta para o convite foi : “ Se eu assistir o seu parto, não vou conseguir parir” - As imagens que eu tinha na minha cabeça sobre partos, eram carregadas de dor, gritos, sofrimento. Eu era ingênua e inexperiente demais para entender o significado daquele convite, e o pedido daquela mulher.


Mas preciso te contar que minha intuição e curiosidade, me colocaram à disposição para apoiar e aprender. De alguma forma eu queria estar lá, eu queria participar e entender mais. Como era possível nascer “só” com a ajuda de outra mulher?

Então ativei minha versão materializadora e com uma lista na mão, sai pela cidade buscando esteiras de palha, chás, águas especiais, tecidos de algodão e muitas plantas, raízes e ervas que eu não conhecia, eram presentes para a mulher que paria.


Enquanto a bebê e a mãe, recém nascidas, cresciam, eu meu desenvolvia.


Tempos depois, recebi daquela mesma amiga, um novo convite, desta vez ela me chamava para estar pela primeira vez em um círculo de mulheres, para trocarmos saberes, e cuidarmos umas das outras. Durante aquele encontro, diante do fogo, comendo comida natural, olhando toda aquela diversidade dos nossos corpos e experiências, entendi que a partir daquele momento seguiria acompanhada de mulheres. E assim é!


Desde então, de forma discreta e poderosa, me reúno com mulheres para ouvir histórias, celebramos nossos nascimentos e choramos nossas mortes, aprendemos e criamos juntas sobre qualquer coisa que queremos descobrir e vivenciar.


Já vou falar sobre Aura, mas antes, preciso te contar sobre outro parto…


Há alguns anos, minha mente e meu corpo chegaram no limite depois de uma vida de sobrecargas. Eu não sabia “ser” se não fosse para produzir, cuidar de todos. E eu estava a serviço para socorrer o mundo, e pela primeira vez na vida senti que minha criatividade estava morrendo.



A artista que vive dentro de mim desejou voltar a brincar, queria encontrar crianças, artistas e pessoas que estavam cuidando do campo sutil da vida humana, era urgente equilibrar minha energia vital para seguir existindo.


Em uma mistura de medo e coragem eu mudei a direção, desapeguei do que parecia confortável. Pouco tempo depois, percebi que eu estava gerando uma vida em meu útero. Eu estava no processo de criação de uma vida humana. Essa oportunidade me fascinou.


Lina sendo criada em meu ventre

Desejei gerar e parir, em casa, com conforto e liberdade, acompanhada de Gisele, aquela minha amiga da outra história, que naquele tempo já tinha se tornado uma parteira.


Meu círculo de mulheres se juntou para me oferecer bênçãos a minha família, e tudo que eu precisei chegou até mim. Foi nesse momento que comecei a receber presentes surpreendentes, que até hoje não param de chegar.




Desejei gerar e parir, em casa, com conforto e liberdade, acompanhada de Gisele, aquela minha amiga da outra história, que naquele tempo já tinha se tornado uma parteira. Meu círculo de mulheres se juntou para me oferecer bênçãos a minha família, e tudo que eu precisei chegou até mim. Foi nesse momento que comecei a receber presentes surpreendentes, que até hoje não param de chegar.


Um milagre histórico aconteceu em minha vida, e na vida das minhas ancestrais…

Eu escolhi!


Escolhi ser a mãe que eu queria ser, escolhi me despedir de uma rotina intensa e cheia de sobrecargas para gestar. Escolhi parar, parir, amamentar, e vivenciar a infância da minha filha. Eu intuí que no começo da vida estavam as respostas e que eu precisava para ressignificar o meu viver.


Essas escolhas não são simples e nem românticas, são atos de existência dentro de um sistema que cuida muito pouco de mulheres e crianças. Eu abri uma brecha e confiei que seria possível, apesar do medo do desamparo.


Essas escolhas, como as escolhas de todas as mulheres, tem um preço alto a ser pago

Mesmo assim, arrisquei experimentar e buscar algo que nos foi tirado há muito tempo “ Viver por Prazer”. Eu senti que precisava fazer isso por mim , pela minha linhagem e por todas…


Quando minha bebê começou a andar, minha criatividade começou a voltar. E nesse momento uma pandemia atravessou nosso caminho, em nenhum momento minha imaginação alcançou o que estava por vir. Vivi uma solidão que nunca tinha sentido antes, pela primeira vez eu estava distante fisicamente das mulheres que integram e nutrem a minha vida desde que cheguei por aqui. Mesmo acompanhada da minha criatividade, comecei a sentir um grande medo, senti que algo poderia me faltar. Foi então que me coloquei em oração e pedi amparo para seguir fazendo o que tenho prazer em fazer.


Dias depois, recebi um chamado de Renata, Anne e Eve, três parteiras de sonhos, que estavam apoiando o nascimento do Círculo Aura.


Eu não tinha dimensão do que significava esse convite, mas dessa vez minha intuição e minha experiência, me fizeram dizer sim!


Aura, um parto coletivo.


Uma das coisas que mais me marcaram quando encontrei as parteiras do Aura foi ouvir de uma delas que o círculo era formado por mulheres que eram “ falhas no sistema” … Na hora eu me reconheci, eu sou uma falha nesse sistema. Passei a maior parte da minha vida tentando me encaixar, me adaptar, diversas vezes tentei me encolher para caber.


O que expresso através do meu viver, a primeira vista não cabe na prateleira das coisas úteis e urgentes, não alimenta as linhas de produção. Tudo que consigo gerar no mundo vem de um lugar de encantamento, alimenta a brincadeira, eu convido crianças e adultos a criarem em seus cotidianos. O que tenho para oferecer, sempre me pareceu insuficiente, quase sem valor.


Durante meses também achei que eu não cabia no Aura, acho que essa sensação era resquício das experiências anteriores. Também descobri que tudo que contei até aqui não é sobre mim, é sobre nós… Essa descoberta me gerou um misto de alívio e preocupação.


No Aura, recebemos presentes. O grande convite é sobre cuidado e prazer, experiências pouco vivenciadas pela maioria de nós.




Então nos perguntamos: Se não vamos produzir? Vamos fazer o que?


Ouvir e compartilhar histórias….


E assim estamos em trabalho de parto, num processo de regeneração e recriação, apoiadas por parteiras, e diversas mentoras que compartilham seus saberes e cuidados.

Nessa casa de parto “Aura”, há espaço para sutilezas, gritos, sussurros, gemidos de dor e prazer.


Entre uma contração e outra, nos perguntamos:


E se todas as mulheres do mundo tivessem a chance de criar sem medo?


O que aconteceria se tivéssemos a oportunidade e a coragem de largar o que pesa e relaxar?


Como seria o mundo se as mulheres tivessem a liberdade de se alimentar e gozar em liberdade?


Estamos juntas, numa experiência extraordinária, inimaginável, bravamente desbloqueando traumas, e criando novas realidades em nossos cotidianos.


Somos parteiras umas das outras.

E hoje tenho a consciência de que todas as mulheres sabem parir.




 





Renata Laurentino é artista-facilitadora, mãe e pesquisadora das infâncias. Desenha experiências e ambientes com crianças, famílias e educadores. Idealizadora das caixas “Nutrição para Imaginação” e escritora do livro “Somos”. Se dedica a harmonizar as relações e os ambientes comunitários onde vivem crianças e pessoas criadoras.